Capítulo 2
Fiado
Fiado
O caderno de fiado da Padaria Nova é uma relíquia encardida, com cantos moles de tanto ser folheado por dedos com farinha. Lá dentro estão os nomes de meio bairro, cada um com sua letra e seu jeito de dever: uns pagam no dia cinco, sem falta; outros pagam quando podem, e seu Osvaldo nunca cobra em voz alta.
— Não é generosidade — ele explica, se alguém pergunta, meio sem graça. — É que lembrar de todo mundo é meu jeito de garantir que ninguém suma de vez.
— Enquanto tiver nome no caderno, tem gente que ainda vai voltar.
Foi o que ele disse no dia em que perguntei por que não digitalizava aquilo tudo numa planilha.
O caderno de hoje tem um nome novo, escrito com letra trêmula de criança aprendendo a assinar: o neto de dona Célia, comprando pão sozinho pela primeira vez, já com direito a fiado, se precisar.