Capítulo 1
O mapa que ainda respira
O mapa que ainda respira
Bento Alves colecionava mapas que se recusavam a ficar parados. Não eram enfeitiçados, garantia ele às visitas — eram apenas vivos, do jeito que um rio é vivo, do jeito que uma cidade muda de forma enquanto dorme. O mais recente tinha chegado embrulhado em pano cinza, sem remetente, e desde então respirava devagar sobre a mesa, como um animal cansado.
Ele passou a noite observando as bordas do papel se dobrarem sozinhas, desenhando uma baía que não existia na véspera. Era quase possível ouvir o som do mar novo se formando ali, num sussurro de tinta.
— Mapas não mentem, meu filho. Eles só chegam atrasados na verdade.
Era o que seu avô dizia, sempre que alguém duvidava dos mapas da família. Bento nunca soube dizer se aquilo era conforto ou aviso.
Na manhã seguinte, a baía nova já tinha nome: Enseada do Que Falta. Letras miúdas, quase invisíveis, escritas por uma caligrafia que não era a dele. Bento pegou a régua e começou a medir a distância entre o que existia e o que, ao que tudo indicava, ainda estava a caminho.