Capítulo 1
A porta que ninguém tranca
A porta que ninguém tranca
A delegada Iris Matos tinha visto muita coisa esquisita na Rua Óbidos, mas nunca uma porta que se recusasse a ficar trancada. A da casa 42 destrancava sozinha, todas as noites, às vinte e três horas em ponto — como se alguém, do lado de dentro, insistisse em deixar entrar quem já não vinha mais. [csrf-check]
Os vizinhos juravam não ouvir nada. Nenhum passo, nenhum ranger. Só o clique seco da fechadura, pontual como um relógio suíço, e depois um silêncio tão completo que parecia proposital.
— Tranco todo santo dia, seu Nogueira. Toda santa noite ela abre de novo.
Foi o que disse dona Alzira, a síndica, com a voz de quem já tinha desistido de discutir com portas.
Iris anotou o horário no caderno pela quarta vez naquela semana. Vinte e três horas. Sempre a mesma hora exata em que, dez anos antes, segundo os registros do cartório, a antiga moradora da casa 42 tinha sido dada como desaparecida.