Capítulo 2
O relógio da esquina
O relógio da esquina
O relógio de rua na esquina da padaria estava parado havia anos, os ponteiros presos em oito e dezessete. Ninguém na Rua Óbidos sabia dizer se era manhã ou noite naquele instante congelado, e quase ninguém mais reparava nele — exceto Iris, que tinha aprendido a desconfiar de tudo que se recusa a andar.
Foi checando o relógio, pela enésima vez, que ela notou o detalhe: o vidro do mostrador estava embaçado por dentro, como se alguém tivesse acabado de respirar ali. Um relógio parado não devia embaçar nada. Um relógio parado não devia, principalmente, ter calor.
— Esse relógio marcou a hora do último dia que alguém viu ela sair de casa.
O padeiro disse isso baixinho, como quem entrega um segredo junto com o troco.
Iris olhou para a casa 42, na outra ponta da rua, e depois de volta para os ponteiros parados. Oito e dezessete. A mesma hora, ela tinha certeza agora, que via riscada num bilhete anônimo recebido naquela manhã.