Capítulo 2
Duas cadeiras, uma mesa
Duas cadeiras, uma mesa
A cafeteria tinha uma mesa de canto que ninguém usava, torta demais para ser confortável e perto demais da porta para ser sossegada. Foi a única mesa livre no dia em que Marina, sem querer, sentou de frente para o barista — que àquela hora não estava atrás do balcão, mas do outro lado, tomando seu próprio café malfeito de propósito.
— Isso é trapaça — disse ela, apontando para a xícara dele, idêntica em erro à dela. Ele riu, sem graça e sem pressa, o tipo de riso que parecia estar sendo guardado havia tempo.
— Eu só sei fazer café errado direito. O certo, nunca aprendi.
Marina achou estranhamente encantador alguém admitir um defeito daquele jeito, sem pedir desculpa nem tentar consertar na mesma frase.
Ficaram as duas cadeiras ocupadas até o café esfriar de vez, os dois fingindo não notar que a mesa torta, afinal, parecia ter sido feita sob medida para essa conversa.